4. REPORTAGENS setembro 2012

1. CAPA  25 COISAS QUE ESTO ESCONDENDO DE VOC
2. TECNOLOGIA  7 DIAS EM 1987
3. SADE  A MORTE COMO ELA 
4. ZOOM  BARBA, CABELO E BIGODE
5. CULTURA  O MUNDO DAS CELEBRIDADES MORTAS
6. SADE  CABEA DE BBADO TEM DONO

1. CAPA  25 COISAS QUE ESTO ESCONDENDO DE VOC
O dinheiro que voc ganha. A comida que come. A gua que bebe. As coisas que compra. Atrs de tudo isso existe um arsenal de segredos que as empresas e os governos do mundo preferem que voc no conhea. Chegou a hora de desvend-los.
TEXTO / Eduardo Szktarz e Bruno Garattoni
DESIGN / Jorge Oliveira
ILUSTRAO / Carlo Giovani e Juliana Vidigal

1- VOC S RECEBE 7 MESES DE SALRIO POR ANO
 isso a: 5 dos seus 12 salrios nunca chegam ao seu bolso. Vo inteirinhos para o governo. Um brasileiro que ganha R$ 3 mil por ms destina 40,98% desse dinheiro para pagar impostos e contribuies que incidem sobre a renda (como IRPF e INSS), o consumo (ICMS, PIS, COFINS, ISS...) e o patrimnio (IPVA, IPTU, ITR...). O clculo  do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributrio (IBPT). Entre os pases analisados, s a Sucia impe uma carga tributria maior. A diferena  que a Sucia oferece servios pblicos de qualidade, diz Joo Eloi Olenike, presidente do IBPT.
Quantos dias a pessoa trabalha, mas no leva:
Sucia: 185
Brasil: 150 (esse tempo s aumenta. Em 1986 82 dias; em 2000 120 dias; em 2012 150 dias)
Frana: 149
Espanha: 137
EUA: 102
Argentina: 101
Chile: 97
Mxico: 95

2- COMER PO TORRADO  PERIGOSO
Quando alimentos ricos em amido, como po e batata, so expostos a temperaturas altas, acima de 120 graus, produzem acrilamida: um composto que est relacionado  incidncia de cncer. Os estudos com a substncia foram realizados em ratos, e no h provas conclusivas de que ela provoque tumores em humanos. Mas a acrilamida  considerada uma questo sria pela OMS e pelas autoridades de sade da Europa e dos EUA, onde at j surgiu uma soluo tecnolgica para o problema: uma enzima artificial, desenvolvida pela empresa de biotecnologia Novozyme, que poder ser adicionada s batatas durante a fritura e reduz em 50% a formao de acrilamida. Enquanto ela no chega ao mercado, a recomendao  evitar que a comida seja exposta a altas temperaturas. Regule a torradeira para a potncia mnima, e no deixe a batata fritar at ficar amarronzada. Os alimentos que adquirem um tom escuro ou que queimam durante o preparo tm mais chance de conter acrilamida, diz o mdico nutrlogo Maximo Asinelli. 

3- COCA E PEPSI CONTM UM INGREDIENTE POLMICO
Segundo estudos publicados em 2007 pelo governo dos EUA, a substncia metil imidazol (4-MI) est ligada ao aumento no risco de cncer. Ela  utilizada na fabricao de medicamentos, tintas e produtos agrcolas e tambm est presente em alguns refrigerantes  pois  um subproduto do corante caramelo IV usado em bebidas. Segundo uma anlise do Centro para a Cincia no Interesse Pblico (CSPI), dos EUA, uma lata de Coca-Cola brasileira tem 267 microgramas de 4-MI.  66 vezes mais do que a Coca da Califrnia  e 9 vezes acima do limite estabelecido pelo governo de l. Dos 9 pases estudados pelo CSPI, o Brasil  lder no uso da substncia, tambm encontrada na Coca Diet, na Pepsi e na Pepsi Diet.
     A Coca-Cola nega qualquer risco, mas decidiu mudar sua frmula, na Califrnia, para diminuir o 4-MI e satisfazer a lei. No Brasil, a frmula no ser alterada. A empresa diz que o uso do corante observa os critrios da Anvisa e no traz risco. A quantidade de 4-MI ingerida pelo consumo de refrigerantes no  significativa, afirma. A PepsiCo tambm diz que no h problema. No h evidncia cientfica de que o composto 4-MI em alimentos ou bebidas traga risco, afirma. A Anvisa segue a mesma linha. O consumo dirio de 1 litro de refrigerante de cola resultaria na ingesto de 1,2% do total aceitvel para um adulto. Ou seja: voc teria de beber 83 litros de refrigerante por dia para passar do limite seguro. O governo da Califrnia no concorda, alegando que os efeitos do 4-MI ainda no so plenamente compreendidos. A Food & Drug Administration, do governo dos EUA, diz que os refrigerantes so seguros. Mas aceitou analisar uma petio do CSPI, que pede o banimento da substncia.

4- H PEDAOS DE INSETO NA SUA COMIDA
 praticamente inevitvel que, ao longo de todas as etapas de produo de um alimento industrializado (colheita, processamento, embalagem, etc), ele acabe sendo contaminado por fragmentos de inseto. Tanto  que, no ano passado, a Anvisa publicou uma Consulta Pblica para debater limites tolerveis para eles. O documento sugere o seguinte: mximo de 10 fragmentos de inseto a cada 100 g de molho de tomate ou 100 g de chocolate, e at 60 pedaos de inseto em 25 g de caf torrado. O padro ainda est sendo estudado. Hoje, a legislao brasileira no aceita nenhum pedao de inseto na comida, informa a Anvisa. Mas os insetos na comida so uma realidade  e voc j deve ter ingerido centenas de fragmentos deles sem saber.

5- O CHOCOLATE CORRE RISCO DE EXTINO
O problema est no solo da frica, que responde por 72% da produo de cacau mundial. O cacaueiro gosta de crescer em florestas,  sombra de rvores mais altas. Mas os produtores esto derrubando as outras espcies para plantar s cacau. Com isso, a curto prazo a colheita aumenta, mas o solo fica ressecado e erodido pela ao direta do sol. Em 20 anos, o chocolate vai ser como o caviar: to raro e caro que as pessoas no vo poder comprar, diz John Mason, diretor do Centro de Pesquisas sobre Conservao da Natureza (NCRC), sediado em Gana, segundo produtor mundial de cacau.
1 Costa do Marfim 1350
2 Gana 970
3 Indonsia 500
4 Nigria 210
5 Camares 200
6 Brasil 180 (embora seja grande produtor, o Brasil precisa importar cacau. Fonte www.icco.org

6- QUANTO MAIS RELIGIOSO VOC , MENOS AGE POR COMPAIXO
As religies pregam a compaixo com o prximo. Mas, na prtica, quem  religioso no liga muito para a compaixo. Isso foi constatado por um estudo da Universidade de Berkeley, nos EUA, que analisou a vida e os hbitos de 1337 pessoas adeptas de vrios credos. As pessoas menos religiosas se guiavam principalmente pela compaixo quando faziam algum ato de caridade  como oferecer o assento do nibus a um estranho, por exemplo. J entre os mais devotos, era diferente. Os mais religiosos baseiam sua generosidade em outros fatores, como a doutrina e a reputao ante os membros da comunidade, diz o socilogo Robb Willer, autor do estudo.
     A tese de Willer foi comprovada por outro estudo, em que 210 estudantes de diversas religies, classes e etnias participaram de um jogo. Cada um recebeu uma quantidade de pontos que poderiam ser trocados por dinheiro. E decidia se compartilhava os pontos ou guardava para si. Resultado: entre os menos devotos, a compaixo pesou muito nas atitudes em favor do grupo. J entre os devotos, a compaixo quase no influiu  eles sempre doavam valores parecidos, independentemente dos sentimentos que tinham em relao aos demais participantes.

7- MADONNA NO CANTA, DUBLA
E VRIOS OUTROS ARTISTAS TAMBEM
No  papo de crtico. Quem acusa Madonna de enganar os fs no palco  o rival Elton John. A ltima alfinetada foi em janeiro, antes da performance da Material Girl no Super Bowl americano. No deixe de sincronizar bem os lbios, ironizou ele. No show que fez em Ramat Gan, Israel, no dia 31 de maio, Madonna foi flagrada vrias vezes fazendo exatamente isso. Ela chegava a sair do palco para trocar de roupa enquanto as canes continuavam rolando. O playback  mais comum do que se imagina. Os britnicos do Bloc Party, por exemplo, deram vexame no MTV Vdeo Music Brasil de 2008. O vocalista escorregou no palco, mas a msica seguiu rolando solta. A cantora Katy Perry j fingiu at que sabia tocar flauta. E foi vaiada quando tirou o instrumento da boca sem saber que o solo continuava. Rihanna e Britney Spears tambm abusam de truques assim. Afinal, se at Madonna pode...

8- UM TERO DOS CIENTISTAS MENTE
Eles mesmos admitiram isso, numa pesquisa realizada em 2005 pela revista Nature. De 3247 cientistas, 33% confessaram (anonimamente) que fizeram pelo menos uma coisa antitica ao elaborar seus estudos. Por exemplo: 1,5% cometeu plgio, 15,5% adulteraram o mtodo ou os resultados do estudo, e 12,5% usaram dados que sabidamente no eram confiveis. E na maioria dos casos,  de propsito mesmo. Em 2010, o bilogo americano Grant Steen analisou 788 retrataes que tiveram de ser publicadas devido a erros ou fraudes em artigos cientficos. Cerca de 53% dos artigos fraudulentos foram escritos por fraudadores reincidentes, afirma Steen. E os pesquisadores mentirosos costumam se associar uns aos outros. Eles tendem a colaborar com cientistas que tambm se retrataram por outros trabalhos. 

9- O SALMO QUE VOC COME NEM SEMPRE  SALMO
Pode ser outra coisa: truta salmonada. A truta e o salmo integram a famlia dos salmondeos e tm gosto bem parecido  s que a truta  mais barata. Por isso, h produtores que do s trutas uma rao aditivada com corante, para que elas fiquem rosadas, visualmente idnticas ao salmo. Se a truta for consumida na forma de sushi, cortada e misturada com shoyu,  muito difcil notar diferena no sabor. O prprio salmo tambm  alimentado com corantes  porque, como  criado em cativeiro, no tem acesso aos crustceos dos quais se alimenta na natureza, e que do a ele sua cor rosada natural. Os criadores colocam na rao os pigmentos astaxantina e cantaxantina, que podem ser sintticos ou extrados de algas, afirma o engenheiro de alimentos Cludio Lima.
     O mundo dos peixes, alis, est cheio de pegadinhas. O linguado geralmente no  linguado, e sim merluzo, e o badejo na verdade  abadejo  mais barato e importado da Argentina. Os restaurantes fazem de tudo, pois ningum sabe o que come, revela o chef de um restaurante de So Paulo, que prefere no se identificar. Tem um peixe chamado abrtea que pode ser salgado para parecer bacalhau. O processo de preparo  o mesmo. Se voc encontrar um prato a RS 20 e outro a RS 80, saiba que o mais barato no  bacalhau. A abrtea vive no Atlntico Sul  bem longe da Noruega, lar do bacalhau.

10- A RUSSIA TEM 42 CIDADES SECRETAS
Juntas, elas tm 1,5 milho de habitantes. Mas no apareciam no mapa at o final dos anos 1980. Hoje sua existncia  conhecida  mas s se entra l com autorizao do Ministrio da Defesa ou da Agncia de Energia Atmica da Rssia. Conhea as principais:
NOME: KRAZNOZNAMENSK. Fica a apenas 40 km de Moscou. Tem 36 mil habitantes. Abriga um centro de controle de satlites, e trabalha ajudando a coordenar a Estao Espacial Internacional.
NOME: OZYORSK. Com 82 mil habitantes, teve o acesso restringido durante a Guerra Fria por ser prxima a Mayak  onde havia uma usina de plutnio. Hoje, recicla material radioativo do arsenal sovitico.
NOME: VILYUCHINSK. Foi fundada em 1968 para construo de submarinos militares e vive disso at hoje. Ganhou duas igrejas nos anos 1990 e possui 23 mil habitantes (1000 a menos que em 2002).

11- A CARNE DE BOI  FEITA COM COC
Os galpes de criao de aves so forrados com serragem, sabugo de milho triturado, feno e casca de arroz. Essa mistura, chamada de cama de frango, fica cheia de fezes, bactrias, penas e resduos de medicamentos. E era usada para alimentar o gado no Brasil at 2004. A prtica foi proibida porque o gado poderia se infectar com os prons: protenas ligadas  encefalopatia espongiforme bovina  a doena da vaca louca, diz Gerson Scheuermann, da Embrapa. Nos EUA, contudo, a prtica  permitida. E pior ainda. L, as aves comem olho, crebro e intestino de boi  que acabam sendo ingeridos, junto com fezes, pelos prprios bois. Isso completa o ciclo dos prions, e causa a doena, diz o mdico americano Michael Greger.

12- IMPRESSORA A LASER POLUI O AR
O alerta  de Lidia Morawska, cientista da Universidade de Queensland, Austrlia, e uma das maiores especialistas do mundo em qualidade do ar. Ela testou 62 modelos de impressoras a laser e constatou que 17, das marcas HP e Toshiba, emitiam alta quantidade de partculas ultrafinas  que podem ser inaladas e causar problemas respiratrios e cardacos, alm de tumores. Ainda no se conhece bem a composio dessas partculas. Uma hiptese  que sejam formadas pela evaporao de compostos do toner (tinta da mquina), que  submetido a altas temperaturas. A emisso varia conforme o modelo. A HP 4250n, por exemplo, emite muito, enquanto a 2200DN, da mesma marca, no emite quase nada. A HP diz que no h indicaes de que as partculas tragam risco, e que mais estudos so necessrios. Testes vigorosos so parte integral das pesquisas da HP e de seus procedimentos de controle de qualidade.

13-  SEGURO USAR O CELULAR NO AVIO
Tanto que vrias companhias j permitem o uso, e seus avies no caem por isso. Uma possvel explicao para o banimento est na rede de telefonia. O avio voa muito alto, a 12 mil metros, e muito rpido (900 km/h). Se voc ligar um celular dentro dele, o sinal ir se espalhar por longas distncias, o que  ruim. O celular usado no avio pode se comunicar com vrias torres de telefonia [ao mesmo tempo], congestionando a rede, esclarece a fabricante de sistemas aeronuticos Honeywell. Nos avies onde o celular  permitido, h um equipamento que intercepta o sinal e o redireciona para um satlite, evitando interferncias.

14- O IPHONE TEM DATA PARA PIFAR  E AS LMPADAS IAM BEM
Segundo a Apple, a bateria do iPhone aguenta aproximadamente 400 ciclos completos de carga e descarga. A partir da, ela comea a perder desempenho at, eventualmente, pifar. Isso  uma consequncia natural e inevitvel, pois os materiais empregados na bateria (tanto a da Apple quanto as dos demais fabricantes) se desgastam com o uso. O problema  que, como a bateria do iPhone no  removvel, o usurio  obrigado a enviar seu iPhone para a assistncia tcnica se quiser troc-la. E a vem a surpresa: nos EUA, essa substituio custa US$ 80  quase o preo de um iPhone novo, que l custa de US$99 a US$199 (com os subsdios fornecidos por operadoras). Acaba compensando mais comprar um aparelho novo, mais moderno, e simplesmente jogar fora o antigo. Ou seja: na prtica, o iPhone j sai de fbrica com uma data de morte.
     As lmpadas incandescentes tambm. Elas duram em mdia 1000 horas, mas poderiam durar muito mais. Isso s no acontece devido a um acordo celebrado entre os 7 maiores fabricantes de lmpadas do mundo  que na dcada de 1920 decidiram limitar a durabilidade do produto para vender mais. Os fabricantes cujas lmpadas fossem consideradas excessivamente durveis, inclusive, tinham de pagar multas ao grupo. A manipulao foi comprovada por uma investigao feita pelo governo ingls nos anos 1950. Mas, at hoje, a vida til das lmpadas se mantm em torno de 1000 horas.

15- O IPHONE GRAVA OS LUGARES ONDE VOC ESTEVE
Os dados ficam armazenados num arquivo e so transferidos para seu computador quando voc o sincroniza com o iPhone. No h evidncia de que a informao seja transmitida para a Apple. Mas qualquer pessoa que tenha acesso ao seu computador pode acompanhar os seus movimentos e saber onde voc estava, minuto a minuto, diz o especialista em segurana Pete Warden, que  ex-funcionrio da Apple e revelou o segredo. A Apple diz que o iPhone no fica vigiando o usurio, e que o suposto rastreamento  apenas uma maneira de aumentar a preciso do GPS - que s opera com o consentimento da pessoa. O iPhone mantm um banco de dados com a localizao de hotspots Wi-Fi e torres de celular, para ajudar a calcular sua localizao de forma rpida e precisa quando solicitado, afirma a empresa.

16- EXISTE LIXO RADIOATIVO EM SO PAULO
Cerca de 80 toneladas de areia com metais pesados esto num terreno da avenida Miguel Yunes, 115, em Interlagos, na zona sul da capital. E uma pequena parte contm materiais radioativos: urnio e trio. Esse material sobrou da Usina de Santo Amaro (Usam), que funcionava em So Paulo e foi fechada em 1992.
     A histria comea com a Nuclemon (Nuclebrs de Monazita e Associados), uma estatal criada nos anos 1970 e ligada ao programa nuclear brasileiro. Ela controlava a Usina de Santo Amaro, onde eram produzidas as chamadas terras raras  minerais usados para fabricao de produtos eletrnicos, computadores, ms e msseis, por exemplo. A matria-prima da usina era a chamada areia monaztica, que era extrada do litoral norte do Estado do Rio e levada at a Usam para processamento. Essa areia contm 4 minerais: ilmenita, zirconita, rutilo e monazita. Os trs primeiros no so radioativos e tm aplicao na indstria de metalurgia e cermica. J a monazita, alm de possuir 60% de terras raras em sua composio, contm trio (5%) e urnio (0,2%).
     A usina processou centenas de toneladas de areia monaztica at fechar. O que fazer com os resduos da Usam? O plano era envi-los a um depsito em Caldas, Minas Gerais. Mas s parte do material chegou at l.  que o ento governador mineiro, Itamar Franco, proibiu o transporte do lixo radioativo para seu Estado. Assim, a outra parte das areias foi jogada no terreno de Interlagos, onde funcionava a Usin (Usina de Interlagos). E l permanece at hoje.
     Atualmente, o solo est sendo descontaminado pelas Indstrias Nucleares do Brasil (INB), uma empresa ligada ao Ministrio de Cincia e Tecnologia. Os rejeitos radioativos esto sendo colocados em bombonas (tambores de plstico resistentes e hermticos) dentro de um galpo de 2250 m2 que foi construdo no prprio terreno. Segundo a INB, eles somam at agora menos de 10 toneladas. E de l iro para um depsito final, cuja localizao ainda ser determinada pela Comisso Nacional de Energia Nuclear (CNEN). J a terra contendo minerais pesados est sendo estocada em pilhas na superfcie do terreno para futura transferncia  unidade de beneficiamento de minerais pesados em Buena, localizada na regio de Campos, no Rio de Janeiro.
     A INB afirma que sua inteno  transportar tudo para Caldas, mas isso requer um processo de licenciamento complexo. O material vai ter de passar por muitos municpios, e alguns deles no liberam o acesso. Por isso, as negociaes so longas. Segundo Valter Mortagua, coordenador da unidade de So Paulo da INB, o trabalho de descontaminao do terreno tambm  meticuloso e demorado  o que torna difcil prever uma data para o fim das tarefas. Os materiais estocados na Usin no colocam em risco a sade da populao, diz Mortagua.

17- OS EUA POSSUEM VRUS QUE PODEM DEVASTAR O MUNDO
A varola matou 300 milhes de pessoas no sculo 20 at ser erradicada com campanhas de vacinao, o ltimo caso foi registrado em 1977, na Somlia. Mas o micro-organismo por trs da doena, do gnero Orthopoxvirus, continua muito bem, obrigado. A varola ainda  uma ameaa para o mundo inteiro. Os EUA e a Rssia guardam estoques do vrus congelado desde a Guerra Fria, diz Steven Block, biofsico da Universidade de Stanford e um dos maiores especialistas mundiais em bioterrorismo. O arsenal americano  mantido no Centro para Controle e Preveno de Doenas, em Atlanta. Uma eventual liberao do vrus, por acidente, terrorismo ou guerra, poderia ter consequncias terrveis  porque a vacinao em massa contra varola foi interrompida h mais de 30 anos (e tambm porque, para manter a eficcia, ela teria de ser reaplicada a cada 10 anos).
     Os EUA tambm cultivam organismos ainda mais perigosos, como o vrus ebola e a bactria Bacillus anthracis (antraz), ambos altamente letais. O propsito oficial  desenvolver vacinas contra eles. Mas algo sempre pode dar errado. Em setembro de 2001, um terrorista obteve esporos de antraz  um p branco, que ele enviou pelo correio para alguns polticos e jornalistas americanos, gerando pnico no pas. Segundo uma investigao do FBI, o antraz usado nos ataques teria sido roubado de um laboratrio do governo americano por Bruce Ivins, cientista que tinha acesso a esse material. Ivins acabou se suicidando em 2008.

18- VITAMINA AUMENTA RISCO DE CNCER EM FUMANTES
Voc fuma, se alimenta mal, e a decide consumir um suplemento vitamnico para tentar compensar esses maus hbitos? Cuidado. A maioria dos comprimidos multivitamnicos contm betacaroteno, um pigmento laranja que  convertido em vitamina A pelo organismo. E ele pode ser perigoso para quem fuma. Cientistas da Universidade do Sul da Flrida analisaram os hbitos de 109 mil americanos que ingeriram de 20 a 30 mg de betacaroteno por dia e constataram que, entre os fumantes, o suplemento estava associado com aumento no risco de cncer de pulmo. Em suma: se voc fuma, no tome multivitamnicos com betacaroteno. Ou, melhor ainda, pare de fumar.

19- ADOANTE ARTIFICIAL ENGORDA MAIS QUE ACAR
A evoluo condicionou nosso corpo a esperar uma dose de energia sempre que ingerimos algo doce. Quando tomamos um suco de laranja, por exemplo, nosso organismo sabe que est ingerindo algo bastante calrico (140 kcal por copo). Mas quando tentamos engan-lo com adoante, geramos um curto-circuito: o organismo no obtm as calorias que esperava  e dispara uma vontade de comer mais. Ou seja mesmo sendo menos calricos, os adoantes tm um efeito colateral que faz o indivduo engordar. Foi assim com ratos testados por psiclogos da Universidade Purdue, nos EUA. Os animais alimentados com iogurte adoado com sacarina ganharam mais peso que os do grupo que comeu iogurte com acar, diz Susan Swithers, autora do estudo.

20- SOJA PODE CAUSAR INFERTILIDADE
A soja  um alimento saudvel, que traz vrios benefcios. Mas tambm pode trazer um malefcio: reduzir a concentrao do esperma.  o que indica um estudo feito pela Universidade Harvard, nos EUA. Os 99 participantes informaram a quantidade de produtos de soja, como tofu, hambrguer e leite, que haviam consumido nos 3 meses anteriores. Os homens que ingeriram ao menos meia poro desses alimentos por dia tiveram as mais baixas quantidades de espermatozoides, diz Jorge Chavarro, lder do estudo. Motivo: a soja  rica em isoflavona, uma substncia que imita a ao do hormnio feminino estrognio  e que, nos homens, tem sido associada a transtornos reprodutivos. Nas mulheres, as isoflavonas poderiam ampliar o ciclo menstrual, mas as implicaes sobre a fertilidade ainda no so claras, diz Chavarro. Segundo a Associao Brasileira dos Produtores de Soja, os benefcios ou malefcios do consumo dos produtos feitos com soja dependem de diversos fatores, como a idade e o peso da pessoa. A entidade tambm ressalta as vantagens econmicas da produo desse alimento, que  acessvel para a maioria da populao. A soja  a protena mais barata, diz Glauber Silveira, presidente da associao. O assunto est longe de ser um consenso entre os cientistas. No h relao entre o consumo de soja e infertilidade em homens, diz Jos Marcos Gontijo Mandarino, pesquisador da Embrapa Soja. Segundo ele, os estudos atuais no fornecem evidncias definitivas de que o consumo dirio de isoflavonas da soja tenha impacto sobre o sistema reprodutivo. 

21- OS MDICOS NO LAVAM AS MOS
Higiene  fundamental, ainda mais em um hospital. Mas os profissionais de sade no levam a prtica muito a srio. Ns estimamos que, para cada 100 vezes que o mdico deveria higienizar as mos, ele s faz isso 36 a 40 vezes, diz Marcos Antonio Cyrillo, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). E no  s no Brasil. Um estudo do mdico Didier Pittet, da Universidade de Genebra, afirma que os mdicos lavam as mos apenas na metade das vezes que deveriam. E isso ameaa a sade dos pacientes. Se fossem seguidas todas as medidas adequadas, como lavar as mos, isolar o doente e usar equipamentos de proteo, conseguiramos reduzir de 30% a 40% a taxa de infeco hospitalar, afirma Cyrillo.

22- H REMDIOS NA GUA QUE VOC BEBE
Quando voc ingere um medicamento, at 70% da dose  desperdiada: simplesmente no  aproveitada pelo organismo, e sai na urina e nas fezes. Junto com elas, o medicamento vai embora pela privada. O problema  que os sistemas de tratamento de gua no esto equipados para retirar as molculas dos remdios  que acabam contaminando rios, lagos e reservatrios, at retornar  sua torneira. Ou seja: junto com a gua, voc bebe medicamentos que foram excretados por outras pessoas. So os chamados poluentes emergentes. A concentrao dessas substncias na gua  multo pequena: algo como 1 em 1 trilho, menos que 1 gota numa piscina olmpica, diz Jos Carlos Mierzwa, professor de engenharia ambiental da USP. No entanto, estudos feitos na Europa e nos EUA indicaram que espcies de peixes e rpteis j tiveram alteraes em seu sistema endcrino. No Reino Unido, peixes machos expostos a hormnios presentes em anticoncepcionais passaram a ter caractersticas femininas. Ou seja: h uma ligao entre a presena de resduos de medicamentos na gua e problemas de sade em animais. Existe um risco potencial para os humanos, e por isso precisamos de mais estudos, afirma Mierzwa.
     A Sabesp diz que a gua fornecida por ela atende  legislao e aos padres do Ministrio da Sade, e que ainda no h provas cientficas suficientes sobre a relevncia dos poluentes emergentes. Alm de acompanhar a evoluo dos estudos, a Sabesp financia pesquisas na rea. Se riscos  sade humana forem comprovados, certamente outros regulamentos sero expedidos pelo Ministrio da Sade e atendidos pela Sabesp.

1.TORNEIRA - Voc bebe gua.
2.REMDIO - Voc toma um comprimido de medicamento.
3.BANHEIRO -Voc urina - e excreta resduos do remdio.
4.REPRESA - Junto com a urina, o medicamento vai parar em represas e estaes de tratamento de gua  que no conseguem elimin-lo.
5.RETORNO  Resduos do medicamento voltam a voc, pela torneira.


23- EXISTE UMA MQUINA QUE CONTROLA A ATMOSFERA
 o HAARP (Programa de Investigao de Alta Frequncia da Aurora), uma instalao no Alasca com 180 antenas e 360 transmissores de rdio. Essa mquina emite ondas eletromagnticas que so absorvidas a 150 km de altitude, alterando o comportamento dos eltrons dessa camada da atmosfera. O Pentgono, que  dono do aparelho, afirma que o objetivo  estudar as propriedades da ionosfera para melhorar os sistemas de comunicao e vigilncia (de uso civil e militar). Mas o programa tem inspirado teorias da conspirao de todo tipo  inclusive que estivesse relacionado ao tsunami no Japo, em 2011. Bobagem. O mais provvel  que o verdadeiro objetivo dos EUA seja se proteger de um eventual ataque nuclear da Coreia do Norte. Se os norte-coreanos detonarem uma bomba atmica na ionosfera, os eltrons que viajam livres nessa zona poderiam queimar a rede de satlites dos EUA. Nesse caso, o HAARP poderia servir como uma espcie de escudo, barrando os eltrons. Mas isso  apenas especulao.

24- O FACEBOOK DEIXA VOC MENOS FELIZ
Aps ver as fotos e as conquistas dos outros, voc se sente mal, como se a vida deles fosse muito melhor que a sua. Isso gera uma percepo distorcida  e faz com que os usurios muito assduos do Facebook sejam, na mdia, menos felizes. As pessoas apresentam uma imagem editada e perfeita de si mesmas nas redes sociais. Parece que nunca tm um dia ruim, diz Sherry Tucker, professora de estudos sociais no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). E a percepo distorcida continua mesmo quando voc no est usando o Facebook. Psiclogos da Universidade Stanford, nos EUA, pediram que 80 estudantes avaliassem as emoes de seus colegas durante duas semanas. Na mdia, os voluntrios subestimaram a tristeza e superestimaram a alegria de seus amigos.  razovel supor que postar no Facebook, onde as pessoas tm completo controle sobre a imagem que projetam, possa contribuir para esses erros de percepo emocional, diz o psiclogo Alexander Jordan, um dos autores da pesquisa.
     Mas as redes sociais tambm podem provocar o efeito contrrio  e melhorar a vida de quem as usa. Existem estudos comprovando que Facebook, Twitter e similares aproximam as pessoas e ampliam seu crculo de relacionamentos. Uma pesquisa da Universidade de Toronto constatou que hoje as pessoas tm mais amigos (reais) do que h 10 anos. E quem mais se beneficia desse fenmeno  justamente quem fica bastante tempo no Facebook e nas outras redes  e, por conta disso, tem 38% mais amigos do que uma dcada atrs.

25- FAZER EXERCCIO NO  A MANEIRA MAIS EFICAZ DE EMAGRECER
Exerccio  fundamental para a sade. Mas, se o nico objetivo  perder peso, malhar no  necessariamente a melhor resposta.  uma questo de matemtica. Os alimentos modernos so muito calricos, e por isso precisamos nos exercitar muito para queimar a energia que adquirimos comendo. Voc tem de correr 1,5 km para queimar as calorias presentes em um reles brigadeiro. E precisa suar quase uma hora na bicicleta para compensar um pedao de empado de frango (cerca de 300 calorias). Controlar a prpria alimentao  mais fcil, e mais rpido, do que enfiar o p na jaca e tentar compensar tudo na academia. Mesmo porque quem se exercita tende a acabar comendo mais. Cientistas da Universidade de Ottawa, no Canad, monitoraram 13 mulheres jovens aps sesses de academia. Em mdia, elas ingeriram 878 calorias  o equivalente a um Big Mac com fritas mdias  na hora seguinte a um exerccio intenso (correr na esteira), o que anulou a quantidade de calorias que elas haviam queimado durante o exerccio. 


2. TECNOLOGIA  7 DIAS EM 1987
Como era a vida no ano em que a SUPER nasceu? Para descobrir, abdiquei de minha vida cercada de tecnologia em 2012.  Com roupas transadas, videocassete e vinis espertos, paguei mico numa nice. A comear com essas grias.
TEXTO / Felipe van Deursen
DESIGN / Fabrcio Miranda
PRODUO / Cintia Sanchez
FOTO / Jord Buch

     Uma luz brilhou no canto dos olhos. Achei que fosse o celular. Notificao de rede social, aviso do calendrio gravado em outro momento ou uma mensagem qualquer piscando? No. Era o Sol refletido em meus culos escuros espelhados. S no foi mais triste do que cafona.
     Vivi em um tempo em que Jos Sarney era o presidente de um pas cuja economia no inspirava confiana. Um ano em que Charlie Sheen era o gal respeitado de Platoon e restaurante japons era uma excentricidade que comeava a virar moda. Por 7 dias, afastei-me da tecnologia, da cultura e da moda atuais para viver como em 1987, quando a SUPER nasceu. Logo, no tinha notificao de rede social alguma, pois rede social no havia. Era um ano distante. No teria  disposio pendrive, hd externo ou cds gravveis. Porque computador existia, mas era de pouca utilidade prtica para os mortais. Sem smartphone. Telefone? Fixo  e se fosse de tecla j estava bom, porque muitos eram de disco. Sem TV a cabo e dvd, sem led ou LCD. Reconhecimento facial, telas sensveis a toque, 10 mil msicas no bolso? Fico cientfica. Videogame era com joystick e cartucho. Em casa, tinha TV de tubo, videocassete, vitrola, walkmane pilhas amarelas. Mudei o visual dos ps  cabea (com direito a gel no cabelo). E a entraram os culos espelhados. Deram um ar chocante ao meu visual transado. Mas fizeram mais. Sugeriram uma reavaliao sobre minha vida. Eu sentia o espectro do iPhone por perto. Algo no estava bem. 

NU COM A MO NO BOLSO
     Que legal, estou ligando na sua casa!, diz uma amiga ao me telefonar. No  emoo forada.  algo diferente. O telefone de casa s toca quando  parente (ou telemarketing). Mas, desconectado do mundo, o nico jeito de falarem comigo era como em 1987. Foi assim que marquei de sair para o agito. Sem o celular e a banalizao de mensagens gratuitas de aplicativos como WhatsApp, era preciso agendar a programao para valer. Porque, sem perceber, muitas vezes marcamos de mandar uma mensagem para se falar mais tarde, para depois dizer que estamos saindo de casa e ento mandar outra mensagem falando que estamos na porta esperando (sem tocar a campainha). Empurramos com a barriga, como se o imperativo da agenda virasse um gerndio. Tive de mudar. Passem s 21h em casa, disse na vspera. Vesti uma T-shirt muito louca, mas, como ningum apareceu ou ligou, apelei ao porteiro. Se algum passar aqui, por favor diga que estou no bar da esquina esperando. Demoraram, mas chegaram. Porm, a festa aonde amos ficava distante 24 quilmetros. E s sei isso porque o motorista se recusou a usar um mapa e ligou o GPS. Quem est nos anos 80  voc. No quero me perder. Foi-se a aventura radical, mas graas a isso chegamos a tempo da curtio  afinal, sem celular, no dava para saber facilmente como estava a festa nem quem estava l.
     Ficar sem um smartphone no me deixava apenas mais difcil de ser encontrado, mas tambm dificultava a minha vida para achar as pessoas. No s porque eu no podia ligar no celular de ningum (afinal, eles s comearam a se popularizar no Brasil em 1998), mas porque, simplesmente, muita gente abandonou o telefone fixo. O que j foi sinnimo de status hoje  quase suprfluo. Dados da Agncia Nacional de Telecomunicaes mostram que o nmero de linhas de telefone celular dobrou de 2008 a 2012. J o nmero de linhas fixas caiu de 35 milhes para 30 milhes no mesmo perodo. Ou seja, a maioria das pessoas tem um celular e no tem um fixo. Logo,  comum no conseguir falar com algum a no ser que voc ligue para o celular. E, se ficar sem um aparelho cuja principal funo  falar e ouvir j  uma mudana, abster-se de um em que telefonar  algo secundrio piora a situao. Sem smartphone, voc pode se sentir invisvel. Pelado, pelado, como cantava o Ultraje a Rigor nesse grande sucesso de 1987, tema da novela Brega e chique.
     Para no desaparecer socialmente, pela primeira vez na vida levei a srio um aparelho que se popularizou no fim dos anos 1980, a secretria eletrnica. Se antes eu relutava com comentrios do tipo mas por que voc ainda usa isso, pai?, agora eu tinha de chec-la ao chegar em casa. Quase nunca tinha recado. Afinal, s minha famlia recorre  secretria. A rapeize usa outros meios. Falamos com os dedos e com eles deixamos recados. Eis a ddiva do SMS. Ou maldio?
     A psicloga Sherrv Turkle, do MIT, nos Estados Unidos, defende que mensagens de texto nos escondem a uma distncia que possibilita que editemos nossa imagem. H menos espontaneidade na conversa. Resolvi testar. Impossibilitado de escrever (a no ser que usasse os Correios), tive de chamar uma garota para sair  moda antiga: ligando na casa dela. Todos meus ltimos relacionamentos, das declaraes s brigas e s pazes, tiveram grande participao, ou culpa, do SMS. Nem lembrava como  ligar na casa de uma mulher. Podia ensaiar um papo para azarar a gatinha, mas no  a mesma coisa quando escrevemos e reescrevemos algo antes de enviar.  mais fluido. No poderia gaguejar ou deixar o silncio vir  tona. Mas nada disso aconteceu. Ela no atendeu.
     Isso despertou uma sensao diferente. No  como deixar um recado no Facebook ou no WhatsApp, ver que a mensagem foi entregue (porque eles permitem isso) e esperar resposta. No h o que esperar. Apenas tentar de novo mais tarde.  sua nica ferramenta. Portanto, se no h o que esperar, no h ansiedade. O excesso de meios de se comunicar com as pessoas pode nos deixar assim. Se  fcil encontrar qualquer pessoa, o menor sinal da possibilidade de ficar no vcuo provoca isso. Em outro estudo, a maioria das pessoas analisadas checa o celular ou as redes sociais o tempo todo ou a cada 15 minutos.  um comportamento de dependncia, de acordo com pesquisadores da Universidade Stanford, nos EUA. Cada piscadela na telinha do smartphone pode ser uma oportunidade social, sexual ou profissional. Isso significa pequenas recompensas ao crebro, doses frequentes de dopamina que do a mesma sensao de ganhar no cassino, segundo um artigo da revista Scientific American.
     A culpa  nossa. Mandamos 4 vezes mais mensagens que em 2007. So 400 todo ms. Os adolescentes americanos tm uma mdia de 3,7 mil a cada 30 dias. Em uma semana, logo que recuperei meu celular, eram 767 notificaes (sem contar os e-mails). E, mesmo perdendo tantas novidades de arrepiar, no dei falta de nada. Afinal, conseguia falar com os amigos mais prximos, marcar programas, me informar. Ento parecia que era s uma grossa camada de gordura de conversa fiada e excesso de contedo que eu tirava do dia a dia. O essencial permanecia. S que eu no estava acostumado com esse silncio. Meu cotidiano  o apito do celular e a tela que pisca notificando algo com o qual eu vivia muito bem sem h um ano. Imaginar o iPhone do lado ou achar que ele est tocando  algo to comum que tem nome: sndrome da vibrao fantasma (eu cheguei ao ponto de achar que ouvia o meu penltimo celular tocando). Se j sentiu isso, voc tambm , nas palavras de Sherry Turkle, um ciborgue. No um Robocop, grande sucesso no cinema em 1987. Mas algo mais factvel, como algum que checa os e-mails antes de levantar da cama, prtica comum entre um tero dos donos de smartphones. Talvez por isso eu tenha sentido uma certa leveza durante essa clnica de reabilitao digital. Sair de casa sem celular d um ar de liberdade. Mas limita muita coisa. Como flagrar um mendigo ao lado de um grafite com mensagens positivas de autoajuda. Ironia urbana, boa combinao para ganhar likes no Instagram. Senti o vazio no bolso. E me contive em usar a cmera analgica, preocupado em no acabar o filme de 24 poses. Afinal, no foi s na comunicao que a tecnologia mudou nesses 25 anos.

T CANSADO DE ME CANSAR
     T Cansado  um dos hits de Cabea Dinossauro, disco de 1986 dos Tits que ainda fazia grande sucesso no ano seguinte. Alis, era normal filmes, livros, jogos e LPs de anos anteriores figurarem no topo das paradas. Por exemplo: eu achava que ouviria muito Guns nRoses, mas meu colega de baia Alexandre Versignassi, ex-editor da revista FLASHBACK, cortou meu barato. No tinha Appetite for Destruction no Brasil, por mais que o disco de estreia da banda seja de 1987.
     Demorava mais. Alm de no haver internet para voc ver o clipe novo daquela banda naquele blog esperto de msica, o Brasil integrava um time de pases perifricos chamado Terceiro Mundo. Ento as novidades ficavam por conta dos artistas nacionais, como Fausto Fawcett ou Luiz Caldas, maior sucesso daquele Carnaval. Discos estrangeiros tardavam em chegar. s vezes muito, como Rocket to Russia, dos Ramones, que demorou 10 anos. Mas a galera se divertia  bea, mesmo que com menos opes de entretenimento (no Natal de 1987, havia 25 filmes em cartaz em So Paulo. Hoje h quase o dobro). Em televisores de marcas como Telefunken, assistiam  programao da TV aberta. A Sesso da Tarde no exibia s produes aborrecentes, lembra Jos Marques Neto, colecionador de VHS e dono do blog Mofo TV.
     A grande tecnologia caseira era o videocassete de marcas como Philco Hitachi, JVC, Sharp ou Semp Toshiba. As pessoas ligavam para pizzarias que tambm entregavam filmes e pediam o combo mais popular do ano: moarela com VHS de Falco. Entrei nesse clima, comprei vinis do ano com cheque (carto de crdito era raro), fiz pipoca na panela, tomei Guaran e chamei a rapaziada para ver uns filmes. Gostei e esqueci o quanto vingava meu vdeo antigo quando ele comia a fita. E a percebi que tambm brigo com o aparelho de DVD pelo mesmo motivo. Mudam as tecnologias, mas a frustrao quando eles no correspondem s expectativas  igual. Tambm me empolguei com o K-7 que gravei com sucessos do ano. E, como da muito mais trabalho do que montar uma lista no iTunes ou uma mixtape sem se preocupar com o tamanho das msicas, valorizei o esforo e dei uma festa para a turma ouvir a gravao (que ficou ruim). Sem criar evento no Facebook. Bastam telefone e convite por escrito. Eu ofereceria Keep Cooler, vinho gaseificado lanado em 1987, e usque nacionalizado, que era importado, mas engarrafado aqui (o consumo da bebida estava em alta, com um crescimento de 45% em dois anos). Alm disso, muitos vinis. Mas eles quase acabaram com a noite. A agulha havia quebrado na vspera e eu penei para consert-la a tempo, sem celular e internet. Discos so legais, mas a fragilidade da tecnologia deixa uma desagradvel camada de poeira nessa nostalgia.
     Os convidados levaram cerveja, mas em latas de alumnio. Sinal dos tempos. Latinha era de ferro, diz Luiz Andr Alzer, autor do Almanaque Anos 80. Mas no fim deu tudo certo, com direito a uma cortina de fumaa na sala, pois ningum se preocupava em fumar em locais fechados. Eu tinha vontade de atualizar o status no Facebook e registrar o evento no Instagram, mas no podia. No fim, nem queria mais. Percebi que me identificava com outra pesquisa feita nos EUA, em que a maioria dos entrevistados se dizia exausta com o excesso de atividades online. No me sentia cansado como na msica. Estava de folga das rodes sociais.

DE VOLTA PARA O FUTURO
     Mesmo assim, flagrei-me sorrindo ao ver meu celular de novo. Ou ao reinstalar a TV e sentir como ela  leve. Vrios canais HD para ver as Olimpadas enquanto bebo uma cerveja importada comprada na internet.
     No primeiro dia online, estava em uma lanchonete quando recebi um SMS de um amigo ao mesmo tempo em que o vi exatamente na mesa ao lado. Foi coincidncia ou ele s mandou aquilo como forma de dizer que estava ali, quando podia me chamar com a boca? Tanto faz.  isso que a tecnologia de hoje permite. Escolha. At onde a presena dela na vida  saudvel, cabe a ns decidir. No importa em que ano. 

NS, ANALGICOS
A maior parte desta reportagem foi produzida como se fazia em 1987. No consultei o Google e no usei computador. Durante os 7 dias offline, fiz entrevistas por telefone (de fixo para fixo, o que dificultou um bocado) ou ao vivo. O texto foi datilografado, mas, devido  minha habilidade galincea com a mquina de escrever, recorri ao computador (aps a semana,  claro) para terminar, sob a ameaa de no entregar o material a tempo. As fotos so analgicas, feitas em cmeras Nikon FM2 e Hasselblad, com filmes Kodak e Fuji. A maior dificuldade foi, alm da expectativa de no ver o resultado na hora, trabalhar com um nmero limitado de imagens  e no com centenas, quando h espaosos cartes de memria. No h Photoshop ou outro tratamento nas fotos. Alm disso, precisei adaptar-me ao visual de um jornalista dos anos 1980. Aps consultar colegas da poca, sujeitei-me a calas de cintura alta, camisas de tecidos sintticos, meias sempre brancas e um bigode esculpido pela navalha e tratado a gilete de duas lminas. Para completar, desodorante Avano e sabonete Phebo. J no terceiro dia, a sensao de festa a fantasia que ainda no acabara era estressante. Algumas pessoas no me reconheciam. Ao visitar meus avs, o porteiro relutou em abrir porque achava que eu era corretor de imveis. No fim, sentia mais saudade de usar cala abaixo do umbigo do que do celular ou da TV.

A mquina de escrever ganhou de goleada. Alm de apanhar para datilografar, ela  monotarefa. Nada de janelas piscando ou abas de navegao. S serve para
escrever. Enquanto isso, a redao via vdeos no Youtube. E eu os irritava com o barulhento tec-tec.

Com o pescoo ardido e vermelho, cheguei em 1987. Em casa, TV de tubo e VHS. Mas, sem Twitter na novela, fiquei monotarefa tambm na hora de me divertir. Ouvia discos sem fazer nada paralelamente. Algumas roupas que usei voltaram  moda, mas os culos espelhados fizeram parte da pagao de mico. E um alerta: no h filtros vintage nestas pginas.

Festa estranha com gente esquisita. A rapaziada no quis cantar Eduardo e Mnica, da Legio Urbana, que fazia sucesso naquele ano. Mas a festa que fizemos foi um arraso. O difcil foi azarar as gatas com grias oitentistas. Nem apelando s poucas cervejas importadas disponveis.

NO ANO EM QUE A SUPER NASCEU ERA ASSIM
A descoberta dos supercondutores foi a notcia cientfica do ano e capa da ed. 1 da SUPER.
Nossa moeda era o cruzado, cuja nota de 1000 valia Cz$ 222 no fim do ano.
Para o Jornal do Brasil, Fausto Silva era o gordo esperto do Perdidos na Noite, da Bandeirantes, que de to escrachado anunciava o programa do concorrente almofadinha Gugu Liberato, o Viva a Noite.
O Jornal do Brasil era um dos dirios mais importantes do Pas.
Mait Proena, que encantara o Pas na novela Dona Beija, da TV Manchete, foi uma das capas mais vendidas da PLAYBOY.
No futebol, foram dois torneios nacionais. A Copa Unio era o verdadeiro, segundo  a PLACAR. Quem levou foi o Flamengo, da revelao Bebeto.
Michael Jackson lanou Bad, mais esperado que a vacina contra a Aids de acordo com a BIZZ, importante revista de msica da poca.
O navio Solana Star despejou no litoral do Rio 22 toneladas de maconha enlatada aps ser abordado pela guarda costeira. Foi o vero da lata.
O checo Milan Kundera era o maior fenmeno literrio dos ltimos anos, dizia VEJA. Seu livro A Insustentvel Leveza do Ser ficou vrias semanas entre os mais vendidos.
CD era algo to raro que alguns chamavam de disco laser.
E DJ era disc-jquei. Seno, discotecrio.


3. SADE  A MORTE COMO ELA 
No  to simples quanto parece: quando morremos, milhares de partes do nosso corpo esto na ativa tentando reverter o processo. E muita coisa ainda acontece depois que damos o ltimo suspiro.
TEXTO Otavio Cohen e Karin Hueck
DESIGN Rafael Quick
ILUSTRAO Bruno Luna 
FOTO / Dulla

     Quando Steven Thorpe chegou ao Hospital Universitrio de Coventry, no Reino Unido, a equipe mdica disse  famlia que no havia mais nada a fazer. O adolescente de 17 anos havia sofrido ferimentos gravssimos na cabea em um acidente de carro e os danos no seu crebro eram irreversveis. O diagnstico era morte enceflica. Mas a famlia no perdeu as esperanas. O procedimento que comprova a ausncia total de atividade cerebral foi realizado mais 3 vezes, at que o quinto exame revelou ondas cerebrais fraqussimas  o que significava uma chance de sobrevivncia. Duas semanas depois, Steven acordou do coma e comeou a se recuperar. O caso, que chamou a ateno da medicina em 2008, mostra que o limite entre a vida e a morte  mesmo tnue.
     Se um procedimento errado quase acabou com a vida de um jovem em pleno sculo 21, d para imaginar por que a morte ainda assusta os mdicos (para nem falar de ns, reles mortais). Duzentos anos atrs, quando no existiam aparelhos que identificassem os sinais vitais, os diagnsticos errados para o fim da vida eram frequentes. Em 1846, a Academia de Cincias de Paris aceitou que a morte significa a ausncia de respirao, de circulao e de batimentos cardacos. Mas mais de um sculo depois, outro francs, Paul Brouardel, concluiu que o corao no sustenta a vida sozinho. Uma pessoa decapitada pode ter batimentos cardacos por uma hora, o que no quer dizer que ela esteja viva.
     Quando surgiram os respiradores artificiais nos anos 1950, os critrios para definir o fim da vida ficaram ainda mais confusos. Ficou decidido que ele acontece quando as clulas do crebro param totalmente de funcionar e desligam o encfalo, a parte do sistema nervoso central que controla funes automticas, como a respirao e a circulao. Geralmente, isso acontece depois de acidentes ou AVCs. A morte cerebral permite a doao de rgos  j que o resto do corpo continua intacto e imune  dor. (Embora existam relatos de reaes parecidas com s da dor na hora da retirada dos rgos, como batimentos cardacos acelerados e presso alta.) Na teoria, o crebro  a placa me de um computador. Quando ela queima, a mquina no funciona mais, mesmo que todas as outras peas ainda estejam em bom estado. A explicao parece simples, n? Mas da a identificar com preciso quando isso acontece  outra histria.

O FIM. (OU NO)
     De certa forma, a primeira definio de morte, a da ausncia de circulao e respirao, no est totalmente errada. Estima-se que em 99% dos casos so as falhas no corao e no pulmo que encerram de vez a vida (s 1% dos casos tem origem na morte cerebral). Pense de novo na analogia do computador. O sistema corao-pulmo  a bateria da mquina, que garante o funcionamento das outras peas. Quando essa bateria descarrega, voc pode continuar usando o computador ligado  tomada.  o que acontece com grvidas que no tm mais sinais cerebrais, mas que so mantidas vivas por aparelhos at dar  luz. De acordo com o americano Dick Teresi, autor do livro The Undeath (Os No-Vivos), desde 1981, 22 mulheres tiveram bebs estando clinicamente mortas. Seus corpos estavam vivos  mas o crebro j no os controlava mais.
     Por isso, para compreender a morte,  preciso entender como trabalha a nossa bateria. O corao funciona com estmulos eltricos que provocam a contrao (que joga o sangue para frente) e o relaxamento (que o enche novamente).  muito importante que esses movimentos sejam sincronizados. Se o corao bater rpido demais, no d tempo de ench-lo totalmente e a quantidade de sangue bombeada para o corpo diminui. Bater devagar demais tambm no  bom sinal, pelo mesmo motivo: vai faltar sangue para manter as condies vitais. Isso  especialmente perigoso para os pulmes. Sem sangue por l, eles no levam mais oxignio para as clulas. Sem oxignio no h metabolismo e, bem, sem metabolismo as clulas morrem. Para um mdico, a ausncia de batimentos cardacos  uma corrida contra o tempo. Depois de 8 minutos, a chance  extremamente pequena, diz o cardiologista Diego Chemello, do Hospital de Clnicas de Porto Alegre. Mas a prtica  continuar tentando. Em 2012, o jogador de futebol congols Fabrice Muamba ficou 78 minutos com o corao parado, e at hoje ningum sabe direito como. O mais provvel  que a atividade eltrica do corao dele nunca tenha zerado totalmente e o oxignio que ele recebeu por aparelhos tenha garantido sua sobrevivncia.
     Alm das batidas irregulares, a parada cardaca pode ser causada por um infarto, responsvel por 70% das mortes sbitas no Brasil. O sangue que chega ao corao pela artria coronariana vem cheio de glicose, cidos graxos e sais minerais que controlam a atividade eltrica do msculo. Se essa artria  obstruda por gordura (o famigerado colesterol), o suprimento de nutrientes  interrompido e acontece uma pane eltrica. De fato, o infarto  um problema eltrico. Por isso que o aparelho preferido dos para-mdicos de sries de TV se chama desfibrilador. O impacto do choque  de 200 joules, o suficiente para acender uma lmpada de 100 watts por dois segundos  e para botar nosso corao no ritmo.
     Se o corao parar de bater, a circulao  interrompida na mesma hora. Nos 3 primeiros minutos, a recuperao  quase certa porque o organismo tem reserva de oxignio e nutrientes (sim, toda a nossa vida s deixa 3 minutos de economias). Mas isso logo acaba e as clulas param de funcionar. As do crebro puxam a fila.  nos neurnios que so feitas as reaes qumicas e eltricas mais complexas do corpo, que mais precisam de oxignio. Para se ter uma ideia, o tecido cerebral recebe 10 vezes mais sangue que o muscular, que realiza uma funo mecnica e bem menos complicada  o movimento. Depois de 5 minutos, pode haver danos permanentes, diz o cardiologista Guilherme Fenelon. A consequncia pode ser perda da fala ou dos movimentos, por exemplo. Mas tambm pode ser bem mais esquisita: em 2011, a escocesa Debbie McCann acordou de um derrame com um problema que fz sua fala ficar parecida com sotaque italiano. E teve tambm o caso do jogador de rgbi que saiu do armrio depois de um AVC.
     No fim das contas, seu corpo no foi feito para viver para sempre. No fim, o corao vai parar de bater, a respirao vai cessar e, como uma lmpada, o crebro vai se apagar. A vida acaba a. Mas a morte, no. Ela est apenas comeando.

AS MUITAS MORTES
ESTRANGULAMENTO  No enforcamento, a cartida e a jugular so esmagadas, o que faz com que o fluxo de sangue no crebro pare.  Ao mesmo tempo, a presso na regio pode tambm afetar o ritmo dos batimentos cardacos.  Ou seja, o estrangulamento para o funcionamento dos dois rgos mais importantes para a vida: crebro e corao.
FALNCIA MLTIPLA DE RGOS  Uma das principais causas de falncia mltipla de rgos  o choque sptico. Acontece assim: uma infeco que o sistema imunolgico no consegue deter causa a dilatao dos vasos sanguneos.  Com os vasos largos, a presso cai, o corao no se enche mais adequadamente, bate fora do ritmo e os rgos vitais ficam sem sangue. E adeus mundo cruel.
CNCER  Os tipos mais comuns de cncer (pulmo, mama, colo-reta e estmago, segundo a OMS) matam do mesmo jeito: pela metstase.  As clulas doentes se multiplicam descontroladamente e podem pegar carona no sangue ou no sistema linftico at chegar a outras reas do corpo, como pulmes, ossos e crebro. Sufocadas pelas doentes, as clulas saudveis deixam de funcionar.
AFOGAMENTO  Uma pessoa no consegue ficar com o pulmo vazio por muito tempo, porque ele tenta se encher involuntariamente. A a gua inalada obstrui a faringe, chega aos alvolos pulmonares  e falta oxignio.
CARBONIZAO   a falta de oxignio que faz com que uma pessoa morra em um incndio. Apesar de o fogo queimar os tecidos do corpo o  o que tambm acabaria levando  morte , a asfixia mata antes.
ENVENENAMENTO  Cada veneno age de uma maneira. A morte por cianeto, preferido dos autores da romances policiais, acontece por causa de ligaes qumicas do veneno com o ferro do sangue, que  essencial para a respirao celular.  o ferro, afinal, que carrega o oxignio. Sem ele, as clulas morrem.
ACIDENTE  Os acidentes matam pela perda de sangue. Se as feridas forem graves, vai faltar irrigao nos rgos principais. O corao pode parar de bater porque o consegue se encher mais. Se a situao no for contornada, a pessoa perder a conscincia por falta de oxigenao no crebro, diz o cardiologista Diego Chemello.

O COMEO DO FIM
ANTES DE VIRAR P, NOSSO CORPO VIRA UM MONTE DE OUTRA COISA.
0 MINUTO - Ao contrrio do que diz o clich, ningum cai duro no cho ao morrer. Como o sistema nervoso no libera mais os neurotransmissores que contraem os msculos, o cadver fica totalmente flcido.
5 MINUTOS - O corpo deixa de responder a estmulos externos. No h mais respirao nem batimentos cardacos.
1 HORA -  hora do sangue parar. Primeiro, coagula o contedo das veias, por onde o sangue corria mais lentamente. O lquido das artrias segue a gravidade e fica perto do cho, onde a pele fica azulada.
2 HORAS - Sem circulao no h metabolismo. Sem metabolismo, no h calor. O corpo, que estava a 36,5C, comea a se resfriar, 1C por hora at entrar em equilbrio com o ambiente.
3 HORAS - O corpo fica rgido quando as reservas de ATP dos msculos acabam. Quanto mais musculosa for a pessoa, mais reservas de energia ela ter, e mais vai demorar para endurecer. A primeira parte do corpo que enrijece  o rosto, que tem msculos menores. Depois, endurecem os ombros, braos e trax. 
DE 5 A 8 HORAS - Sem oxignio, as clulas das paredes dos vasos necrosam e ficam frgeis, principalmente nos capilares dos dedos, que so mais finos. Acontece a hipstase: o sangue sai dos vasos e impregna os tecidos vizinhos.
8 HORAS - O corpo continua a enrijecer. Os msculos das pernas finalmente se contraem. Por causa disso, os dedos do cadver podem estar levemente fechados e os joelhos, um pouco dobrados.
12 HORAS - O corpo  como uma toalha molhada no varal. Depois de um tempo, a gua evapora e os tecidos se retraem. Os olhos ficam fundos, os lbios escuros, e pelos e unhas parecem crescer  mas  a pele que se retraiu.
24 HORAS - Um adulto de 75 quilos pode perder at 1,3 quilo de sua massa nas primeiras 24 horas, graas  evaporao de gua (nada dos famosos 23 g que a fico diz ser o peso da alma). Se o cadver estiver no calor, ao ar livre, pode ficar seco, como carcaas de animais no deserto.
2 DIAS - As bactrias continuam a liberar gases, o que faz com que o corpo inche. O cheiro piora por causa da decomposio das protenas do corpo, e um lquido avermelhado, resultado do rompimento dos alvolos pulmonares, pode sair pela boca e narinas.
3 DIAS - O corpo, que at ento estava rgido, volta  flacidez. Isso porque os tecidos musculares j esto se decompondo. A ordem  a mesma do endurecimento: primeiro a cabea, depois braos e tronco e, por fim, as pernas.
MAIS DE 7 DIAS - Se o corpo estiver em um ambiente com muita umidade e temperatura alta, a gordura do corpo em decomposio reage com sais do solo (como o potssio) e o cadver fica macio e escorregadio, como um sabo. Em seguida, o corpo comea a desaparecer at sobrarem s os ossos.

PARA SABER MAIS
The Undead: How Medicine Is Blurring the Line Between Life and Death 
Dick Teresi, Pantheon, 2012
Death to Dust: What Happens to Dead Bodies
Kenneth V. Iserson, Galen Press, 1994


4. ZOOM  BARBA, CABELO E BIGODE
Eles competem em categorias bizarras  e chegam a tomar vitaminas para no deixar o pelo cair. Conhea os participantes do Campeonato Mundial de Barba e Bigode.
TEXTO / Luiz Romero
DESIGNI  / Ricardo Davino
FOTO / Matt Rainwaters

STEVE GOS - O campeonato aconteceu no Alasca. E a regio inspirou as peles vestidas pelo americano Steve Gos. Os competidores desfilam com roupas elaboradas, param na frente dos juzes e recebem as notas, explica Matt Rainwaters, autor dos retratos, reunidos no livro Beard.
STEVEN RASPA - Chegando ao Alasca, o americano Steven Raspa soube que teria de desemaranhar a barba para participar. Cultivada durante 9 anos, ela estava enrolada com arame. Ele se recusou e acabou desclassificado  triste, pois era um dos participantes mais interessantes, diz Rainwaters.
DANIEL ELDRIDGE - O bigode do americano Daniel Eldridge entrou na categoria Natural (em que no vale usar produtos de beleza). O truque, nesse caso,  modelar repetidamente o cabelo em algum formato curioso. Ainda existem vrios outros estilos, como Dali, inspirado no pintor surrealista.
JOHN PRICE - O americano John Price competiu na categoria Garibaldi, que rene barbas cheias e redondas, com at 20 cm. Esses estilos so como raas em um campeonato de cachorros: cada um tem certos padres de forma, posio e tamanho, conta Rainwaters.
KARL-HEINZ HILLE - O alemo Karl-Heinz Hille pegou o primeiro lugar na categoria Imperial. Nesse estilo, eles usam cera (que pode incluir leo de coco e goma-arbica) para direcionar a barba para cima. Ele ainda ficou em segundo no campeonato, na disputa entre todos os participantes.
UDO FRITZSCHE - Tambm da Alemanha (a competio  dominada por americanos, canadenses e europeus), Udo Fritzsche ficou em segundo na categoria Imperial. Muitos dos competidores contam com a gentica, mas prestar ateno no jeito de aparar a barba  essencial, explica Rainwaters.
BILL MITCHELL - Com uma mistura de barba e bigode, o americano Bill Mitchell conquistou o terceiro lugar na categoria Costeletas, lanada em homenagem a Elvis Presley. O campeonato tem trs divises  barba completa, barba parcial (em que entram as costeletas) e bigode.
JEREM FELTMAN - Na categoria Alaskan Whaler, competem as barbas cheias e longas, mas que no tm bigode. Como o nome j sugere, ela foi dominada pelos nascidos no Alasca. O primeiro lugar ficou com Jerem Feltman, que, alm do cachimbo, carregava uma luneta.


5. CULTURA  O MUNDO DAS CELEBRIDADES MORTAS
Por que alguns artistas ficam maiores, mais lucrativos, mais importantes e mais carismticos depois de mortos? Veja como se formam dolos imortais, que cruzam dcadas e conquistam novos fs gerao aps gerao. Afinal, eles esto entre ns.

     O Coachella 2012 s seria lembrado pelos fs desse festival de msica americano, no fosse o show de encerramento, capitaneado pelo rapper Snoop Dogg. Tupac Shakur, uni antigo parceiro, voltou aos palcos aps 16 anos, incendiando a plateia. Nada demais, no fosse um porm: Tupac morreu em 1996. No show, ele renasceu em um holograma reproduzido em uma tela invisvel no palco. A ideia, concebida pelo colega Dr. Dre, custou mais de US$100 mil. Tecnologia de ponta que deu certo. Foi notcia no mundo todo e as vendas do disco pstumo Greatest Hits dispararam 571%, levando Tupac  lista dos 200 mais vendidos da Billboard.
     Porm, no foi a primeira vez que um holograma ressuscitou artistas em shows. Elvis Presley cantou em 2007 com Celine Dion graas  tecnologia, por exemplo. E holograma  s uma das tantas formas de explorar a imagem desses zumbis da indstria do entretenimento. Shows e discos comemorativos, biografias, exposies, filmes e aparies em programas esto a para manter a chama deles acesa. O consumo dessas obras faz crticos torcerem o nariz por no deixarmos os mortos em paz. Mas tambm contribui para aproximar artistas e fs. Alis, anote na agenda porque alguns devem vir ao Brasil. E um deles  este de gingado nico aqui ao lado.

MICHAEL JACKSON - O DEUS REDIMIDO
Ao longo de quase toda a primeira dcada do milnio, Michael Jackson foi visto como um artista extremamente excntrico, um esquisito que mudou de cor e que fez enorme sucesso em um passado to remoto quanto o walkman. Ele era mais lembrado por suas polmicas relacionadas  pedofilia do que pela msica em si. Prestes a voltar para uma turn, morreu repentinamente, em 2009. Poucos sentiro falta desse show que no houve. Afinal, grandes hits do passado, como Thriller, Bad, Bule Jean, Black or White e ABC, de repente, dominaram as pistas no ano. Se ele estivesse vivo, dificilmente daria a volta por cima e lanaria algo to bom como Thriller. Sua figura era motivo de piada nos ltimos anos, diz Kid Vinil, cantor, DJ e referncia quando o assunto  msica dos anos 80. S no primeiro ms aps morrer, Michael vendeu 4 milhes de lbuns. Muito se deve ao efeito da morte, segundo Mark Roesler, empresrio especialista em trabalhar com a imagem de celebridades mortas. Os preos [de produtos relacionados ao artista] sobem consideravelmente em torno da morte, com itens ainda mais populares quando ela foi repentina ou trgica, diz.
     Mas a morte de MJ o sacralizou de uma maneira rpida pouco vista antes. Em um passo de mgica do showbizz, ele voltou a ser apenas o rei do pop  e no aquele homem de nariz bizarro que pendurou o filho beb na janela. No fim, o que vai contar  o legado. O movimento para trabalhar a imagem dele j comeou e daqui a algumas geraes o rei ainda ser lembrado  mesmo por quem no viveu no mesmo perodo, diz Moacir Galbinski, vice-presidente da Supermarcas, empresa que cuida do legado no Brasil de nomes como Marilyn Monroe e Jimi Hendrix. Foi tudo rpido. Meses aps a morte, foi lanado o documentrio This Is It. Em 3 anos saram o disco pstumo Michael, o jogo Michael Jackson: The Experience, um espetculo do Cirque du Soleil e clipes especiais. Nos primeiros 12 meses aps sua morte, MJ lucrou US$ 1 bilho, segundo um levantamento da Billboard. Em breve, se depender da vontade de sua famlia, ele deve voltar aos palcos, em formato de holograma, como Tupac.
     Enquanto isso no acontece, seus passos se espalham com o show Thriller Live. Celebrando todas as fases de Michael Jackson, o espetculo coloca no palco uma banda, 16 bailarinos e 5 cantores (3 homens, uma mulher e um menino) para represent-lo. Cerca de 2,2 milhes de pessoas j viram a apresentao em 24 pases. O show deve vir pela primeira vez  Amrica Latina, passando por So Paulo e Rio em 2013. Michael ainda brilha. Ento no estranhe se daqui a uns anos continuar vendo gente arriscando os j mitolgicos passos moonwalk em uma festa.

BUS STOP TIL YOU GET ENOUGH - O mundo dos covers chacoalha quando um artista morre. Rodrigo Jam, que em 1996 imitava Michael Jackson na escola e transformou isso em trabalho h 8 anos, ficou mais requisitado. Desde o apotetico funeral de MJ, em 2009, ele saltou de 5 para at 11 shows por ms.

ELVIS O DEUS DOS DEUSES
     Elvis Presley tem 58 anos de carreira. Os ltimos 35 comearam quando ele foi encontrado morto em sua manso Graceland  que, a partir de ento, tornou-se um marco peregrinatrio do culto ao rock. Tudo bem, tem gente que leva a srio a histria de que Elvis no morreu e jura que ele vive no interior dos Estados Unidos ou na Argentina, sob o pseudnimo John Burrows. Mas o fato  que esse ex-caminhoneiro que virou cantor e de quebra mudou a msica para sempre  uma das maiores celebridades que, aps morrerem, tornaram-se divindades pop.
     Pense em uma msica dele. Agora pense no seu visual. Possivelmente foi mais fcil lembrar-se do topete e do rebolado do que de uma cano especfica. Quando se lida com um artista morto, no h a gerao constante de novos materiais e aparies pblicas para reforar a imagem. Voc trabalha com o vazio da presena, diz Galbinski. Ou seja, a morte congelou a imagem de Elvis. Seu visual est eternizado. E imagem forte pede mais merchandising, que deixa essa imagem ainda mais forte.  uma bola de neve. Mas o que tambm alimenta esse legado  uma legio de ssias. Graas  internet, conhecer a obra do artista e interagir com outros imitadores ficou mais fcil. Por isso h mais covers de Elvis hoje do que h 10 anos, segundo Marcelo Neves, presidente do f-clube Elvis Triunfal. Cerca de 70% dos associados no eram nascidos quando Elvis morreu, diz. Mas os covers formam apenas uma camada mais visvel do culto. H 200 marcas licenciadas com a grife do cantor, fora espetculos como Viva Elvis, do Cirque du Soleil. Suficiente para ele ter lucrado US$55 milhes em 2011 (muito mais que os US$ 18,9 milhes, em valores corrigidos pela inflao, no ano em que morreu). Sim, Elvis morto rende mais do que Elvis vivo. Porque Elvis morto  a representao inclume de um cone do sculo. No h escndalos, msicas ruins ou problemas de sade que corroam essa imagem. H somente o eterno gal e o gnio roqueiro.
     Agora, para lembrar os 35 anos de morte, o cantor tambm vai voltar aos palcos. O show Elvis In Concert passar pela Europa, EUA e Brasil com a banda que o acompanhava em vida. No espetculo, Elvis canta em um telo, com gravaes originais, enquanto a banda toca ao vivo. Vida longa ao rei. 

LOVE ME (BAR) TENDER - Bob Lee (centro), 36 anos, vive de imitar Elvis. Allvis Bueno, 42, desenhista, j fez 3 shows em um mesmo Rveillon. J Bruno, 22, encara o palco por hobby. Essa diferena de idade mostra a popularidade de Elvis: Allvis virou cover na mesma poca em que Bruno nasceu.

MARILYN A DEUSA DA BELEZA
     O vestido rodado branco de frente nica. O cabelo loiro cacheado. O vento. A boca. Voc talvez nunca tenha assistido a um filme estrelado por ela, mas provavelmente reconhece essa imagem (que, alis, est no final do clssico O Pecado Mora ao Lado, de 1955). Afinal, nesse meio sculo, desde que ela morreu aos 36 anos por overdose de barbitricos e foi alada a uma espcie de Afrodite pop, Marilyn Monroe jamais foi esquecida. Criou-se um modelo de mulher perfeita, desejada por muitos e imitada por muitas, transformando-se em um cone, diz Galbinski. Morreu jovem e linda, e assim permaneceu. Quer dizer, melhorou com o tempo, graas  construo do mito. Ela ficou mais bonita e moderna com os anos. As ltimas fotos dela viva mostravam Marilyn mais jovem do que quando era moa, diz o crtico de cinema Rubens Ewald Filho. Quem cuidava da imagem dela era o fotgrafo Milton Greene, que fez as fotos dela nua [publicadas na primeira edio da revista Playboy]. Era um dom. Tm rostos que envelhecem, outros ficam modernos.
     rf, Marilyn no deixou herdeiros. Sua fortuna  controlada pela filha do ator Lee Strasberg, mentor da carreira da artista. A Marilyn Monroe LLC est por trs, por exemplo, da campanha de celebrao dos 50 anos da morte da atriz, do cartaz do festival de cinema de Cannes de 2012, de uma nova linha de maquiagem e de uma mostra que passou pelo Brasil.
     Os 50 anos de morte aqueceram o fenmeno, mas ela est sempre em evidncia. Se Marilyn atuou em 33 filmes em vida, depois que morreu apareceu em mais de 190. Foi eternizada nas artes plsticas por Andy Warhol. Madonna usou sua imagem em 3 clipes. A diva continua a. No filme Sete Dias com Marilyn, ela faz um pedido com chances de se concretizar: Quero ter essa imagem com 400 anos.

O VESTIDO DO METR - Pelo menos uma vez por semana, a atriz Priscila Freitas se transforma em Marilyn. Mas, esse ano, com mostra e filme sobre a atriz, a procura aumentou. Eles querem Marilyn. Sempre, diz.

REBELDIA E PAZ
O OLIMPO DE DEAN E LENNON
     Ele tinha 18 anos, trocou o Direito pelo teatro, foi descoberto pela Warner Bros, e morreu aos 24 em um acidente de carro quando seu primeiro filme ainda lotava as salas de cinema. O sucesso de James Dean poderia acabar junto com sua vida. Mas ele  talvez o exemplo mais bem acabado de celebridade que se agigantou depois de morta. A maior parte dos crditos  da Warner. Com mais dois filmes prontos para ser lanados, o estdio promoveu  exausto o ator morto. E, como ele fez papis semelhantes em todos eles, encarnando um jovem barulhento, a morte em alta velocidade foi perfeita para fazer de Dean o smbolo mximo da rebeldia adolescente. A Warner no podia deixar morrer o cone, diz Ewald Filho. Ento ela transformou esse ator de teatro em incio de carreira no mito transgressor de uma gerao. Funcionou. Dean foi o primeiro ator a concorrer ao Oscar postumamente. E os nmeros de antes e depois impressionam. Juventude Transviada, de 1955, lanado um ms antes de ele morrer, rendeu US$ 39,4 milhes. Assim Caminha a Humanidade saiu um ano depois e arrecadou US$ 118 milhes (os valores esto corrigidos pela inflao).
     Por mais que hoje essa pose de jeans desbotado e casaco de couro em um carro conversvel soe quase anacrnica e inocente, a imagem de James Dean sempre ecoa quando se fala em moda e comportamento jovens. Ele viveu rpido e morreu jovem, virando um cone cultural associado a coragem e revolta, diz Mark Roesler, o empresrio das celebridades mortas e responsvel pela imagem de Dean. Basta ver Robert Pattinson, dolo adolescente e astro da saga Crepsculo. Ele, que nasceu 31 anos depois da morte de Dean, contou que bebeu na fonte de Juventude Transviada para atuar. E assim esse mito de 50 anos atrs segue notvel.
     Se rebeldia virou algo com rosto graas a Dean, a paz tambm ganhou um cone pop com John Lennon. O discurso da paz, que poucas pessoas tinham coragem de fazer, e o tipo de morte trgica o transformaram em mrtir, diz Eduardo Brocchi, coordenador de um curso especfico sobre Beatles da PUC Rio. Isso ajudou a manter a banda de Lennon no topo. Os Beatles acabaram em 1970 e ele morreu em 1980, mas ela continua sendo uma das maiores vendedoras do mundo: pelo menos 1 milho de discos por ano, s nos EUA.
     Quando Lennon foi assassinado em frente ao prdio em que morava em Nova York, ele j era, havia muito tempo, um cone consolidado. Mas, a partir de ento, Strawberry Fields, um jardim no Central Park prximo ao local do crime, virou ponto de peregrinao roqueiro. E qualquer coisa que ele tenha tocado virou ouro. Um dente molar do artista, amarelado e cariado, foi comprado por R$ 54 mil. Hoje, o Cirque du Soleil (sempre ele) explora sua mstica no show Love. E ainda tem o licenciamento de produtos para a marca Mont Blanc, a chegada dos Beatles ao catlogo da iTunes Store e o jogo Beatles Rock Band, entre outros. So coisas assim que o fazem ser uma das figuras sempre presentes na lista de mortos mais ricos da revista Forbes (alm dele, s Elvis e Charles Schulz, o pai do Snoopy, esto sempre no ranking). Quando morreu, ele deixou para a mulher Yoko Ono uma fortuna avaliada em US$ 250 milhes. Hoje, Lennon tem US$ 800 milhes. Sua influncia est dissolvida e espalhada mundo afora. Artistas de mais de 30 pases j fizeram verses diferentes de msicas dos Beatles ou da carreira solo de Lennon. Um exemplo do Brasil: um dos maiores legados dele no Pas est na voz da cantora Simone. A msica Ento,  Natal, que, desde que foi lanada, em 1995, toca todo fim de ano no rdio e na TV,  uma verso para Happy Xmas (War is Over), de 1971. John est por perto e muitas vezes no nos damos conta. Gostem os fs ou no. 


6. SADE  CABEA DE BBADO TEM DONO
De um sutil coquetel a um porre bblico, o lcool produz efeitos bem conhecidos por quem est  volta do bebedor.  Mas o que acontece dentro do corpo? Entenda por que h tantas variveis entre o beber, o cair e o levantar.
TEXTO / Daniella de Caprio e Felipe van Deursen
Design / Ricardo Davino
Foto / Alex Silva

Voc sabe. Se no sabe, conhece algum que sabe. A sensao de fim de expediente, de relaxamento merecido. Esparramar-se em uma cadeira de ferro, plstico ou madeira, pedir uma poro de qualquer coisa frita (porque qualquer coisa frita  boa), levantar o dedo para o garom e, usando apenas as mos, mandar vir o que todos  sua volta esto pedindo: um balde suado de cerveja. O primeiro gole desce lindo. E o segundo consegue ser ainda melhor.  , beber  bom.  E exagerar  terrvel.  Morrer por intoxicao de lcool  100 vezes mais comum do que por maconha. A Organizao Mundial de Sade diz que 4% das mortes no mundo so causadas pelo lcool, seja em brigas ou acidentes. Mas, entre o primeiro gole e uma tragdia, h muitos outros fatores. Com a ajuda de especialistas, a SUPER analisou 9 tipos de bebedores tpicos. Homens, mulheres, gordos, magros, bbados habituais ou no etc. Porque tem dias em que a bebida desce quadrada, tem dias em que parece que nem tomamos todos na vspera e tem dias em que o maior e mais vivido homem do bar d vexame. Voc sabe. Se no sabe, conhece algum que sabe.

BEBEDEIRA TEM NVEL
Onde o lcool age no crebro e quais os efeitos no organismo, de acordo com o nmero de doses (dose = 350 ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 50 ml de destilado. Efeitos refletem 3h de consumo)

SOLTINHO  2 doses
No crebro  Crtex
Acelerao do rimo cardaco e respiratrio.
Diminuio das funes de vrios centros nervosos.
Possvel incoerncia ao fazer tarefas simples.
Perda de discernimento e de inibio.
Leve sensao de euforia, relaxamento e prazer.
Os problemas parecem ficar menores e a vida, mais feliz.  o milagre do lcool.

ALEGRE  4 doses
No crebro  Crtex e prosencfalo
Queda de ateno, reflexos mais lentos e reduo da fora muscular.
Diminuio da capacidade de tomar decises racionais.
Tendncia a uma sensao crescente de ansiedade, depresso e diminuio da pacincia.
Aumento das chances de falar besteiras.

ENLOUQUECIDO  5 doses
No crebro  Crtex, procencfalo e cerebelo
Reflexos ainda mais lentos e problemas de equilbrio e de movimento.
Alterao de algumas funes visuais.
Fala arrastada.
Chance de vmito.
A empolgao nas rodas do bar contribui com o mico de falar cuspindo.

CAUSADOR  8 doses
No crebro  Crtex, prosencfalo, cerebelo e tronco cerebral.
Transtornos graves dos sentidos e noo reduzida do contexto.
Coordenao motora abalada. Tendncia a cambaleamento e quedas.
Grandes chances do tpico bbado chato entrar em cena.

VEXAMINOSO  15 doses
No crebro  Todo o rgo.
Letargia profunda, perda de conscincia e sedao comparvel  de uma anestesia cirrgica.
Risco de morte.
Como eu vim parar aqui?

PERDA TOTAL  20 doses
No crebro  Todo o rgo
Inconscincia.
Parada respiratria.
Risco de morte, em geral provocada por insuficincia respiratria.

BEBEDOR COMUM 
2 doses  lcool no copo: 0,04%. Bebe em at 30 mim. 1h24 para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,076%. Bebe em at 1h15. 4h30 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,096%. Bebe em at 1h30. 4h42 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,144%. Bebe em at 3h. 8h30 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,263%. Bebe em at 6h. 15h30 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,351%. Bebe em at 8h. 20h36 para ficar sbrio.

O RESISTENTE
Quanto mais massa muscular e menos gordura, melhor. Msculos tm gua, que dilui o lcool antes que ele chegue ao crebro e cause efeito. Gordura no retm gua. Ento, o homem, com mais massa e menos gordura, aguenta mais que a mulher. E  por isso que o sujeito forte de 75kg, retratado aqui, resiste mais que o que tem o mesmo peso, mas  gordo. 
2 doses  lcool no copo: 0,039%. Bebe em at 30 mim. 1h54 para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,072%. Bebe em at 1h15. 3h36 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,092%. Bebe em at 1h30. 4h36 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,135%. Bebe em at 3h. 6h42 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,245%. Bebe em at 6h. 12h18 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,327%. Bebe em at 8h. 16h18 para ficar sbrio.

BEXIGA PEQUENA INTERFERE NO PORRE?
No. O tamanho da bexiga no tem nada a ver com a quantidade de lcool absorvida pelo corpo. Ao urinar voc elimina o lcool que j foi metabolizado. Ou seja, que j est agindo no corpo. Bebedores urinam mais porque o lcool inibe a produo do hormnio HAD (antidiurtico), produzido pela hipfise. Ou seja, a bebida faz a pessoa ir mais ao banheiro. E s.

Dry martini: clssico dos resistentes.


A CHEINHA 
Como a gordura no tem gua, mulheres, especialmente as gordinhas, ficam bbadas mais rpido. Quem tem esse perfil deve beber devagar (o que diminui o tempo para ficar sbrio de novo). Outra dica: observe o ciclo menstrual. Um estudo da Universidade Columbia, EUA, diz que mulheres aguentam mais quando bebem aps a ovulao, pois os nveis de progesterona esto mais altos.
2 doses  lcool no copo: 0,032%. Bebe em at 1h. 1h54 para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,047%. Bebe em at 3h. 2h42 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,063%. Bebe em at 3h42. 3h42 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,093%. Bebe em at 6h. 5h30 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,162%. Bebe em at 12h. 9h30 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,199%. Bebe em at 17h. 11h42 para ficar sbrio.

Vodca, licor de caf e creme de leite: white russian, um drinque gordo.

O PRECAVIDO 
Quem come antes de beber faz a digesto enquanto est no bar. A comida faz uma barreira fsica no corpo, ento a pessoa que toma umas de barriga vazia fica com o intestino delgado, que absorve 70% do lcool, desprotegido.  fcil evitar isso. D para comer at 5 minutos antes de iniciar os servios e 200 g de carboidratos (4 pezinhos) j fazem efeito.
2 doses  lcool no copo: 0,02%. Bebe em at 1h. 1h12 para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,023%. Bebe em at 3h. 1h18 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,033%. Bebe em at 3h30. 1h54 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,046%. Bebe em at 6h. 2h42 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,073%. Bebe em at 12h. 4h18 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,08%. Bebe em at 17h. 4h42 para ficar sbrio.

Esse bloody mary tem 8 ingredientes. Quase uma refeio.

A BALADEIRA
Misturar bebida no  problema. O que deixa bbado  a quantidade de lcool no copo, no importam quantos tipos de bebida sejam consumidos. Porm, quem no mistura corre menos riscos porque bebe a um ritmo mais ou menos constante. Quem vira 5 copos de cerveja e parte para e usque tende a tom-lo na mesma velocidade. E, quanto mais lcool, mais bbado.
2 doses  lcool no copo: 0,59%. Bebe em at 30min. 3h para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,133%. Bebe em at 1h15. 5h42 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,143%. Bebe em at 1h30. 7h06 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,217%. Bebe em at 3h. 10h30 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,399%. Bebe em at 6h. 19h54 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,532%. Bebe em at 8h. 26h36 para ficar sbrio.

Margarita  uma mistura de bebidas famosa: tequila e Cointreau.

PORQUE ALGUMAS PESSOAS TEM AMNESIA? - Porque elas bebem rpido demais. E, se estiverem de estmago vazio, mais chances ainda de apagarem. Mesmo assim existem aqueles que bebem vodca como se fosse suco e no tm blecaute. A cincia ainda no tem uma resposta conclusiva alm do bvio: amnsia alcolica varia de pessoa para pessoa. 

O EXPERIENTE 
Enzimas do fgado metabolizam o lcool.  medida que se bebe ao longo da vida, elas ficam mais fortes. Assim, bebedores com mais vivncia de botequim costumam aguentar mais que os juvenis, pois as enzimas fortes diminuem a porcentagem de lcool no corpo. Mas, aps anos de bebedeira, o fgado enfraquece. Por isso  comum ver pessoas boas de copo e muito experientes desmontarem no bar antes de todos.
2 doses  lcool no copo: 0,027%. Bebe em at 30min. 1h18 para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,049%. Bebe em at 1h15. 2h24 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,062%. Bebe em at 1h30. 3h06 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,088%. Bebe em at 3h. 4h24 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,157%. Bebe em at 6h. 7h48 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,209%. Bebe em at 8h. 10h30 para ficar sbrio.

O colorido sex on the beach  forte e engana principiantes.

TOMAR GLICOSE ADIANTA? - No. Tanto que a prtica foi abandonada. Quem d perda total na festa e precisa ir ao pronto-socorro  tratado com remdios que amenizam os sintomas do porre. No mximo a pessoa toma soro. A glicose era usada no passado porque acreditava-se que o lcool inibe a liberao de glicose pelo fgado. Mas isso raramente ocorre.

A DEVAGAR 
Beber rpido aumenta a concentrao de lcool no corpo. O fgado demora em mdia uma hora para metabolizar uma nica dose. Quem bebe devagar d tempo para o rgo trabalhar, diminuindo os efeitos do lcool no crebro. A pessoa retratada aqui no deixa de ficar bbada,  claro, mas afasta o risco de amnsia, efeito ligado  velocidade (veja na pgina anterior).
2 doses  lcool no copo: 0,052%. Bebe em at 1h. 2h06 para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,087%. Bebe em at 3h. 5h06 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,113%. Bebe em at 3h30. 6h42 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,175%. Bebe em at 6h. 10h18 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,315%. Bebe em at 12h. 18h30 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,209%. Bebe em at 17h. 23h42 para ficar sbrio.

Kir royale: mistura delicada de espumante e licor de cassis.

O EMOTIVO
O estado emocional da pessoa no interfere no nvel de lcool no organismo. Mas as bebidas tiram a inibio e realam traos de personalidade e de estresse eventual. Quem est feliz fica falante, empolgado e expansivo, por conta da alterao do nvel de serotonina, neurotransmissor ligado ao humor. Ou seja, ficamos mais instveis quando bebemos.
2 doses  lcool no copo: 0,032%. Bebe em at 1h. 1h54 para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,046%. Bebe em at 3h. 2h42 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,062%. Bebe em at 3h30. 3h42 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,093%. Bebe em at 6h. 5h30 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,161%. Bebe em at 12h. 9h30 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,198%. Bebe em at 17h. 1h36 para ficar sbrio.

O alegre lagoa azul: vodca, suco de abacaxi e curaau blue.

POR QUE ALGUMAS RESSACAS SO PIORES QUE OUTRAS? - Se o estado emocional no interfere na bebedeira, ele mexe com a ressaca. Beber para esquecer a ex-namorada  chance boa de um dia seguinte pssimo. Uma das grandes causadoras de ressaca  a variedade de congneres no corpo. Eles so responsveis por dar cor  bebida, e estudos mostram que quanto mais congneres (e, portanto, mais escuro o drinque), mais poder de desastre ele tem. Alm disso, beber rpido desidrata o corpo. E a ressaca  essa resposta  desidratao: 4 doses causam a eliminao de at 1l de lquido do corpo. Alis, tomar gua ameniza a ressaca, mas no interfere no pileque. Afinal, meio litro de lcool  meio litro de lcool, sempre. 

A MELANCLICA
Alm do estado emocional, outro fator que influencia no comportamento da pessoa (mas, de novo, no no nvel de lcool no sangue)  o ambiente. Quem bebe porque est triste pode ficar numa pior se estiver em um boteco depr. A mulher exemplificada aqui, que bebe rpido e no comeu antes, demora at 6 horas a mais que o experiente, da pgina ao lado, para ficar sbria de novo.
2 doses  lcool no copo: 0,039%. Bebe em at 30 min. 1h54 para ficar sbrio.
4 doses  lcool no copo: 0,073%. Bebe em at 1h15. 3h36 para ficar sbrio.
5 doses  lcool no copo: 0,092%. Bebe em at 1h30. 4h36 para ficar sbrio.
8 doses  lcool no copo: 0,135%. Bebe em at 3h. 6h48 para ficar sbrio.
15 doses  lcool no copo: 0,246%. Bebe em at 6h. 12h18 para ficar sbrio.
20 doses  lcool no copo: 0,328%. Bebe em at 8h. 16h24 para ficar sbrio.

Cosmopolitan: outro clssico, mas feminino.

